03 maio 2016

Carta de um Soldado


Visto que sigo meus vagarosos passos para a minha sepultura, me vejo por fim, na mais humilde obrigação de expor meus singelos sentimentos em forma de carta. Começo pelo fim, visando meu estado de saúde, que definha para um negro abismo, estou acamado, a espera da minha ida sem volta. Me encontro em um hospital que abriga velhos soldados de guerra, velhos conhecidos de lutas, perdas e grandes vitórias. Grandes pessoas que ao se agacharem se tornaram pequenos, mas as causas que os mesmos lutaram os engrandeceram.

Bem, a guerra foi por amor ao meu país, mas por fim o meu país me tirou o amor; Linda Marina de cabelos negros na altura de seus delicados ombros, grande mulher de estatura baixa, que me fazia pensar como pequeníssima criatura guardara em seu interior imenso coração... Claro, tão bondoso anjo não poderia ser mais bem vindo do que em forma de enfermeira, isso, linda e serena; Marina era uma enfermeira, extremamente zelosa e afetuosa. Nos conhecemos entre gritos e preces de uma guerra sangrenta, mas ela foi o meu unguento nas horas de dor.

Entre tímidos olhares, por semanas nos espiávamos de longe enquanto docemente Marina cuidava de uma senhora ferida. E ao vê-la fazendo o curativo na face daquela anciã, percebi que ela daria sentido a minha solitária vida. Chegou o grande dia que precisei ir a tenda que doce Marina atendia os enfermos; tive que ir pois tinha feito um corte na palma de minha mão. Foi nesse momento que senti o toque de um anjo em minha epiderme, a dor do álcool que estava sendo passado em minha ferida não se comparava ao brilho dos olhos de Marina.

Não precisamos de muito tempo para nos aproximarmos cada vez mais, em um mês estava jurando amor eterno para aquele anjo, e a mesma me jurou eterno amor. É nessas horas como vejo que a vida se tornou para mim um grande teste, digo isso pelo seguinte e amargo fato: em um dia comum de intensa batalha, fui guerrilhar junto com meus irmãos de batalha contra uma frota jovem e sedenta de sangue, lutei com unhas e dentes acertando com tiros de uma velha pistola contra meus inimigos, mas um deles acertou em cheio o meu coração.

Não meus caros leitores, não é um defunto que escreve essa carta. Estava a quase 2 metros do meu inimigo que tinha atirado em meu colega de luta, estava pronto para acertá-lo quando o meu anjo se dispôs a levantar o meu amigo. Tão boa vontade foi acertada em cheio, corri até meu inimigo lhe acertando em cheio, dando-lhe uma cotovelada na mandíbula que ao se deslocar o inimigo caiu de joelhos pela dor, por fim lhe apresentei o quente tiro da minha velha pistola. Corri ao encontro de Marina, entre lágrimas os rápidos passos me faziam ter a dimensão de estar correndo em câmera lenta, pela primeira vez estava caminhando ao encontro da morte.

A morte do meu lindo anjo, ah que enorme dor eu senti ao vê-la sem vida, ao ver seus olhos sem brilho. Concluíram-se as guerras, vencemos, mas me senti um enorme perdedor. Segui a minha vida, com as doces lembranças que tive com Marina, e por fim me despeço vejo um enorme túnel negro, e um feixe de luz aponta no horizonte, vejo Marina sorrir pra mim, ela novamente irá tratar as minhas feridas.

E assim me despeço.

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